A Visita Cruel do Tempo (Jennifer Egan)

Vencedora do Pulitzer de 2011 (esse ano decidiram não premiar ninguém), “A visita cruel do tempo” da Jennifer Egan (que por sinal estava na FLIP desse ano) sempre me chamou a atenção tanto pelo título quanto pela arte na capa do livro. Sim, eu escolho muitos livros pela capa, ou até mesmo deixo de comprar se cismar com a capa. Muitos detestam a capa e também o livro, grandes revistas brasileiras não a acham uma autora merecedora do prêmio etc etc, mas nunca me influenciei por isso e essa com certeza não seria a primeira vez.

Todas as vezes que ia as livrarias me via  atraída pela capa, me aproximava e quando lia o título, me lembrava do livro. Só que pelas circunstancias sempre deixava o livro na livraria e nunca comprava.. Até que numa ida a um sarau na Livraria Gutenberg, num shopping aqui perto de casa, fui sorteada e ganhei o livro sem saber! Você participava do sorteio sem saber quais livros estavam na cesta, e justamente na minha vez ele saiu! Ao ser sorteada, só me lembro de ouvir do poeta idealizador do sarau: “Esse livro é bem doido!” 

E realmente. O livro é doido, mas num sentido de ser diferente e não de ruim a ponto de não conseguir acompanhar. É um livro que requer atenção e disposição para acompanhar a falta de enredo e ordem cronológica, que para mim, não gerou nenhum tipo de mal estar. Pelo contrário, num dado momento me peguei me perguntando: “Vamos lá. Quem conta a história agora e em que ano estamos?”. 

Construído de um jeito bastante diferente, “A visita cruel do tempo”  tem justamente o tempo como sujeito e é lotado de personagens que num dado momento tem suas vidas ligadas (algo que a autora faz belamente). Jennifer Egan nos faz um livro que é quase uma junção de capítulos que mais parecem contos incríveis sobre aqueles momentos em que “sentimos o tempo passar” ou que notamos “como o tempo é sutil ou cruel em sua ação”.  É muito bom ler um capítulo situado no passado sobre determinado personagem, e mais adiante, ou seja em outro capítulo, outros personagens conversando acabam te dando o desenrolar da história daquele primeiro.

Fiquei encantada como tudo se encaixou onde deveria e manteve lacunas onde não havia necessidade de preencher. Cada personagem é marcante e forte ao seu modo sem chamar mais atenção que o próprio tempo. Aliás, não há uma “unidade” narrativa no livro, a cada capítulo temos um narrador diferente e as vezes ele só se revela depois de umas quatro ou cinco páginas de leitura.

Jennifer Egan

Agora você se pergunta, o livro não tem narrador, não tem enredo, nem ordem cronológica e ainda por cima tem um capítulo inteiro formado por slides (sim, ela faz um capítulo inteiro com diagramas, setas e nomes, mas que são cruciais pro desfecho de alguns personagens), por que diabos ele ganhou um prêmio?  Mesmo com tudo isso, ou até mesmo por causa disso tudo – coisa que eu acredito – é que ele seja essa grande leitura, em certas horas você não quer soltar do livro. Eu mesma li o danado até sentir dor de cabeça no ônibus! Quase  perdi ponto, quase perdi o livro… Carreguei comigo para onde pude porque queria ler, e não porque queria terminar o livro.

Agora, um dos muitos trechos que me chamaram atenção pela forma como ela escreve:

“Mas a cada decepção que Ted sentia com relação à mulher, cada ínfima murchada, era acompanhada por um espasmo de culpa. Muitos anos antes, ele pegara a paixão que sentia por Susan e a dobrara ao meio, para não ter mais aquela sensação impotente de quem se afogava sempre que a via deitada ao seu lado na cama: seus braços bem-desenhados, sua bunda macia e generosa. Depois a havia dobrado ao meio de novo para que, quando sentisse desejo por Susan, este não viesse mais acompanhado por um medo aflito de jamais conseguir se saciar. Depois ao meio outra vez , para que o fato de sentir desejo não viesse acompanhado de uma necessidade imediata de ação. E depois novamente ao meio, para que ele mal o sentisse. No final, seu desejo ficou tão pequeno que Ted poderia guardá-lo dentro a escrivaninha ou de um bolso e esquecê-lo, e isso lhe dava uma sensação de segurança e realização, de ter desmantelado um aparato perigoso que poderia ter destruído a ambos.”

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6 opiniões sobre “A Visita Cruel do Tempo (Jennifer Egan)

  1. Adorei a resenha, estou curioso pra ler…recentemente eu li um livro com vários pontos de vistas e narradores, mas tudo sobre um mesmo tempo…Gostei muito do livro. Um dos melhores do ano.

    Será q vamos ver mais posts assim por aqui?

    Bjos e mais Bjos Gracinha Literária

  2. Fiquei curiosa!!!! E adorei a capa!!! Ordem as vezes deixa monótono. Assim faz prestar bastante atenção a leitura. Eu estava lendo um livro que tive que parar por não conseguir me concentrar e assim fciar sem entender. larguei ele e peguei outro. quando pega-lo vai ser com muita atenção e um dicionário ao lado. quero rabisca-lo inteiro. mas quero entende-lo.
    beijos

  3. Nossa, que doidera de livro e a capa já transmite isso, né?
    Achei bem interessante, parece ser confuso e certo ao mesmo tempo.. É legal como certos autores conseguem trabalhar isso bem, não é pra qualquer um!

    Sério que você também tem essa vontade? Que legal! Viajar sozinha é bem interessante, preciso fazer isso mais vezes. hahaha
    Espero que você conheça Curitiba, é uma cidade incrível.
    😉

    Beijos, bom final de semana.

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