Centro Pompidou, mulheres e criatividade

Ontem, dia 14/07, se encerrou a exposição “Elles: Mulheres artistas na coleção do centro Pompidou. Uma exposição com obras feitas por mulheres e que são parte do acervo do Centro Pompidou. Uma oportunidade única de ver obras de Frida Kahlo à Marina Abramovic, de telas impressionistas à obras performáticas, ver o que inspirou mulheres de gerações muito diferentes e enfrentamentos também.

Ao sair do CCBB – RJ pela primeira vez – sim, eu fui duas vezes – estava cheia de perguntas:

“Por que uma exposição com esse tema?” ,”Por que agora?”, “Quantas serão as obras pintadas por mulheres e assinadas por homens?”, “Por que o ambiente doméstico e a religião são pouco retratados em suas obras?” E por fim “Há influência do gênero na criatividade? Pois, se tudo que nos cerca influencia a criatividade, por que o gênero não seria um desses fatores?”

Me fiz muitas outras perguntas e fui pela segunda vez para associar um contexto com as obras e o que poderia ter permeado aquilo tudo e, perceber, principalmente, que há quase nada sobre o universo masculino. Tentar refletir ainda mais sobre a criatividade do meu gênero, coisa que até então eu não havia parado para perceber. Tentar conectar o que as sensibilizava com o que nos rodeia hoje como estímulo.

Curiosa, fui fazer uma busca rápida no Google sobre “criatividade feminina” e só fui redirecionada a livros sobre criatividade em culinária, artesanato, filhos, criatividade de mulheres negras em período de escravidão e “negócios criativos”. Ponto. Nada mais havia de claro e direto sobre estímulos ou estudos sobre “nossa” criatividade. Por força da coincidência, meu irmão ganhou em um sorteio um livro chamado “O Despertar de Minerva: Um estudo sobre criatividade das mulheres” e dois dias depois estava lendo.

O livro de 97 é uma “adaptação” de uma tese sobre criatividade feminina de um ponto de vista social e individual. Analisa a criatividade em si, justifica as diferenças de percepção de mundo entre homens e mulheres e como isso pode influenciar nas criações. Nos mostra que há 3 modos em que nós mulheres vemos como “o que seria a criatividade” e como nos vemos como três pessoas diferentes : mãe, esposa e profissionais. Ao longo do livro, há entrevistas com mulheres “reais” para que validem a tese e ainda nos sirva de inspiração e exemplifiquem o que foi dito. É mais interessante ainda ler que não possuímos mais uma deusa para nos inspirarmos – por isso o título do livro -, que a referência espiritual para  maior parte das mulheres no mundo é a “Mãe Maria” e não “Deus Onipotente e Onipresente” como os homens possuem, e como essa realidade atinge fortemente nossa confiança e noções de nós mesmas. 

“The Art must be beautiful. The artist must be beautiful” – Marina Abramovic. Obra presente na exposição.

Ler que uma acadêmica nos anos 80 encontrava os mesmos assuntos que eu encontrei quando busquei sobre o assunto é assustador. Ainda lermos/vermos como “contra corrente ” mulheres artistas, bem sucedidas em negócios e líderes políticas é no mínimo inquietante. Encarar naquelas entrevistas presentes no livro dramas familiares e problemas de auto estima nos 60 e 50, mas que até hoje ouço em conversas nos ônibus e filas é confuso, em tempos tão livres.

Ver obras da Frida Kahlo, Sonia Delaunay e Marina Abramovic numa mesma sala nos faz lembrar da força criativa que temos para além de “bordados e receitas”. Saber que somente 3% dos acervos de museus do mundo inteiro são criados por mulheres devem ser forças motrizes pra nós, saber, também, que desses 97% que restaram a grande maioria retratam o feminino, deve nos fazer pensar. Pensar que se tomarmos a arte como apreensão e reflexão de uma sociedade sobre si mesma, e que grande parte das obras que estão nos museus do mundo inteiro são sobre o mundo feminino e 97 % delas são feitas por homens, a visão que temos de nós mesmas são as visões e apreensões masculinas, e não nossas. 

 

Em tempos de Marcha das Vadias e da luta ainda constante por respeito e reconhecimento – principalmente sobre nosso corpo, já que ganhamos poder sobre ele, mas me parece que muitas ainda não sabem o que fazer com esse poder – é essencial exposições como essa. Para nos vermos por nossos próprios olhos e não de um observador. Enfim, reconhecer na tela nossas angústias, pressões e desejos.

Somando esses pensamentos com a leitura do livro me vi ainda mais instigada a pensar a minha própria criatividade, o que eu entendo como criatividade e se me considero criativa. Perguntar para pessoas de confiança as mesmas perguntas e confrontar com minhas respostas são passos importantes pra saber se me subestimo ou não. Tentem também. Tentem para tirar um pouco dessa pressão sobre nós e esse perfeccionismo que nos ronda e atrapalha tudo. Explore a criatividade no trabalho, em casa, na decoração, naquilo que ame fazer e “nunca tem tempo”, pois é como dizem “é melhor ter um resultado razoável do que resultado nenhum“.

E, por fim, faço uma adaptação das palavras da autora em sua sinopse:

“Que esse post celebre o romance que você sempre sonhou escrever, a canção que espera ser cantada e as várias maneiras através das quais a mulher possa se expressar.”

[edit] Para saberem mais sobre Marina Abramovic, digo para começarem por esse video. São somente 4 minutos de doçura e sensibilidade quando em uma performance ela se depara com seu marido. [/edit]

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8 opiniões sobre “Centro Pompidou, mulheres e criatividade

  1. uau, se houvesse a opção de curtir. eu curtiria esse texto!
    essa é uma reflexão que faço muitas vezes também. e acredito que ainda estamos longe de uma produção (em várias áreas) aceitável feita por mulheres.

    gostei bastante!

    abraços 🙂

  2. Olha só, mais um grande texto, será q isso está se tornando uma hábito?

    Por sorte posso comentar sobre essa exposição, eu também fui ver…gostei bastante, tentei não pensar como produções feitas por mulheres, pelo menos até as primeiras 2 salas, onde tudo ficou mais evidente.

    Além da Abramovic temos a Niki Saint Phale que belos trabalhos, mas se não me engano nessa exposição só tem o “Papai -1973”, onde ela destroi a figura paterna [uma das poucas figuras masculinas presente na exposição]

    Mas seu post não é sobre a exposição e sim sobre as mulheres.

    Concordo com seus argumentos menos com esse: não possuímos mais uma deusa para nos inspirarmos – por isso o título do livro -, que a referência espiritual para maior parte das mulheres no mundo é a “Mãe Maria” e não “Deus Onipotente e Onipresente” como os homens possuem, e como essa realidade atinge fortemente nossa confiança e noções de nós mesmas.

    A imagem de Deus sendo um homem nunca me norteou ou fez diferença em como eu me via na sociedade. Existem outras “Deusas” na mitologia da Igreja Católica: Nossa Senhora Aparecida, Nossa senhora de Fátima e até a Joana D’arc.

    Não podemos criar barreiras para a arte ou qualquer outra forma de expressão ou habilidade pensando se é homem ou mulher. Não vivemos mais na era clássica onde a mulher era apenas um objeto de desejo do homem.

    Gostei do seu texto, espero ver um pouco mais disso por aqui [e fico orgulhoso de você]. Pq querendo ou não estamos vendo sua criatividade em ação.

    Bjos e mais bjos

  3. Não sei se eu concordo 100% com essa afirmação de que as mulheres se vêem como três pessoas diferentes : mãe, esposa e profissionais. Especialmente entre mulheres talentosas e ultra criativas como a Marina Abramovic, que, na minha opinião estão fora desses rótulos. E acho que, justamente por estar fora desses rótulos, é que elas se destacam não dentro de uma categoria, mas com seres humanos incríveis, independente de sexo.

    Não vi a exposição porque já tinha visto as obras no Pompidou, mas claro, teria sido muito interessante ver essa seleção de trabalhos (apenas) femininos. Me arrependi de não ter ido… : (

  4. Que texto bacana, Ingrid.. Tu abordou um assunto muito interessante e que com certeza nos faz questionar as mesmas coisas. Sobre a nossa criatividade, sobre ir além… Até me senti inspirada por tudo isso, mas ao mesmo tempo com bloqueios, o que eu tenho que refletir para saber como liberar o que me prende.

    E eu ainda não me mudei, dá tempo sim! 🙂
    Acho que se você mandar até essas semanas, chega antes de agosto, vamos torcer..
    Ah, eu já vi o blog da finlandesa, mas faz tempo que não entro… vou dar uma olhadinha de novo! 🙂
    beijos ❤

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