Reparação – Ian McEwan

Li “Reparação” no iniciozinho do ano. Não me lembro exatamente o mês, mas foi bem no começo. Li por força do filme “Desejo e Reparação“, o vi tem bastante tempo e me lembro que a história me marcou bastante.  Quando meu irmão comprou o exemplar ele logo entrou na minha lista. A capa me chamou logo a atenção, mas ele ficou ali na lista, apenas. Sempre adiava, adiava, até que fiz um post aqui no blog sobre “5 livros para ler em 2013” e tratei de cumprir a promessa e, enfim, ler!

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A experiência, como todo livro do Ian para mim, foi complicada no começo. Acho a narrativa inicial dele muito lenta, tão lenta que costumo dizer que os livros dele “só começam na página 200”. Por conta disso o Ferds, do Maldito Vivant, costuma me chamar de Serena, a personagem principal do último romance dele, já que ela também não tem muita paciência com começos lentos.

O livro é de 2002, um romance ao redor de  Briony, uma menina de 13 anos na Inglaterra de 1935. Apaixonada por literatura e extremamente inventiva, presencia uma situação entre sua irmã, Cecília, e um amigo da família, Robbie que a vida de toda a família e amigos muda completamente. O romance é uma obra que nos faz quase que uma ode à fraqueza, ao orgulho, à sensibilidade, identidade e amadurecimento. Tudo isso envolto a literatura, as palavras, criatividade e a força de todas essas coisas juntas, agindo sem parar em nossas vidas.

Ao começo vemos Briony, caçula, vivendo seu fascínio pela literatura e pelas palavras. Sempre se sentiu extremamente madura perante as meninas de sua idade, porém ainda sofria com aquela necessidade de aceitação que só pré adolescentes sabem como é. Aceitação de ser maior que “as crianças”  e não ser adulta, de não ter poder sobre crianças e nem voz entre os adultos. Com essa situação que envolve a Cecília e Robbie, situação de paixão “adulta” estranha aos olhos de Briony, ela se vê com uma oportunidade de mostrar sua maturidade. Mostrar que é mulher e está preparada para enfrentar esse novo mundo. Este momento é o início do livro, os primeiros capitulos formam as diferentes visões sobre o ocorrido, sobre como cada um se vê na casa – com informações alongadas demais, ao meu ver -, mas que são essenciais para conclusões futuras.

Na “página 200” é quando tudo começa, quando tudo parece acelerar. Robbie está na Grande Guerra e tudo ganha um ritmo rápido, com descrições mais certeiras e é possível imaginar todo o ambiente úmido e hostil. Robbie e seus companheiros passam por situações adversas, e o mais interessante é a eterna sensação de que “tudo aquilo é passageiro” que a qualquer momento todos voltarão para casa e Robbie reencontrará Cecília é o que faz o livro também seguir em frente.

 

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Chegar aos 18 anos de Briony, saber que ela se torna enfermeira e que mantem seu sonho de ser escritora escondido sob seu remorso é a parte mais psicológica – e maravilhosa – do livro. Briony é um personagem complexo, mostra toda a imagem de um escritor observador, introspectivo, inseguro e que acredita que escrever não é prioridade, porém é importante pra ela, e não fazê-lo a torna oca. A escolha de Briony pela enfermagem também é intrigante, o desejo pela rigidez, pelo pouco tempo para “pensar em escrever bobagens”, de se penalizar pelo equivoco cometido aos 13 anos de idade é reflexivo. Ser enfermeira, cuidar dos outros, encarar feridos de guerra é amadurecer. Provar a si própria sua coragem e ao mesmo tempo abafar seus ímpetos criativos e estar próxima dos extremos humanos. Como a própria personagem diz: no curso de enfermagem logo aprendi o que sempre soube, que o corpo humano é matéria: fácil de danificar e difícil de consertar”.

O final do livro é um espetáculo à parte, compensa toda a lentidão do começo e as peças se encaixam por completo. Nos deparamos com ainda mais complexidade de Briony e seus pensamentos sobre vida, arrependimento, comiseração e sim, a literatura e o ato de escrever. Para aqueles que já leram: vejam o filme, para quem já viu o filme: leia o livro, para os que já fizeram os dois: façam de novo. Relembrem a beleza que é ambas as obras e observem como falam sobre identidade e nossa relação com a memória e construção de nós mesmos.

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5 opiniões sobre “Reparação – Ian McEwan

  1. Hum, a volta do bom e velho Ian.

    Eu gosto dele, gosto da maneira que ele escreve e como você sabe, sou apaixonado pela construção dos seus personagens, em especial pela Serena.
    Como tenho vontade de ler mais coisas dele vou colocar Reparação [que parece um título saido do mundo da Jane Austen] na minha lista.

    Legal esse lado psicológico da Briony, que me lembra um pouco de Serena, que desejava crescer e sair do pequeno mundo paroquial de onde vivia e acabou caindo nas mãos da MI-5.

    Será que isso faz parte de todos os livros dele ?

    De verdade, quero ler…

    PS: as vezes estranho você trocar as fotos pelas palavras, se você pegar posts antigos, era mais fácil ver fotos do que as palavras, mesmos os posts de livros.

    Amo tudo isso…e sinto uma pontinha de ferds em vc…como vc deve sentir uma pontinha de gracinha qdo ve algo do meu instagram.

    Bjos e mais bjos

  2. Gosto de começar sempre com o livro e, como ainda não li, estou evitando ver o filme. Fiquei bem curiosa com a história e não me intimido com o início lento (sou fã de Proust, pra você ter uma ideia!).

    Beijo Ingrid!

  3. Ingrid, gostei da ideia do encontro sim, vamos marcar! Só conheço as meninas da Flambê e Cellophane pela internet também… Acho que seria uma ótima oportunidade para sair da relação apenas virtual!

  4. Ainda não li o livro, mas amei o filme! Ainda mais por que o casal é perfeito e a história mais ainda, apesar de todo o sofrimento no decorrer da história. Dizem em geral que um filme jamais supera um livro, então certamente deve valer muito a pena ler. bjs!

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