Rick Owens SS14 e um basta aos padrões

Não escrevi nada sobre a semana internacional de Moda. Vi e tenho meus favoritos sem sombra de dúvida, mas não há como falar sobre Semana de Moda de Paris sem falar de Rick Owens e seu desfile performático.

Não estamos falando de uma coreografia, luzes ou astros pop. Falo de um desfile ritmado, enérgico e forte. Um desfile em que o casting foi substituído por dançarinas de step dance_o tipo de dança percussiva onde o próprio corpo é instrumento e os passos e batidas produzem som_ totalmente fora do habitual na moda.  Altas, baixas, negras, brancas, loiras, morenas e com medidas muito além do que é visto nas passarelas.

Mulheres dançando com raiva, expressões fortes características da dança, mas que significam, ali, um basta. Esqueça se você gosta ou não de Moda, ou, se você gostou ou não da apresentação, pensem no ato. Dez minutos de apresentação com mulheres usando roupas de alfaiataria de modelagens desconstruídas_típico do Rick Owens_ atestando seu movimento e que elas estão ali para dizerem que não há quem suporte mais esses numerosos e massificados padrões de beleza.

Pensem na ousadia da atitude, de subverter um desfile de moda em uma apresentação de dança com dançarinas que desafiam a plateia nos olhos, provocam a câmera, ou melhor, você que está em casa assistindo. E ainda, se não bastasse, debocha de como o desfile é elaborado ao traçar uma linha no chão para no final passarem por ela como num desfile normal zombando desse conservadorismo, por vezes absurdo, que há na Moda.

Observar a platéia, ver as expressões, o balançar dos pés e cabeças, braços pro alto apoiando e o incômodo nos blasés é o melhor. O burburinho, os flashes, as dezenas de celulares e câmeras registrando o inesperado e a coragem de um estilista de colocar uma voz feminina na passarela – por coincidência – no mesmo dia em que uma ativista do Fêmen invadiu o desfile da Nina Ricci.

Tentem ver o desfile como uma expressão cultural (e é!). Enxerguem tudo como alguém que usou a grandiosidade e poder de influência da Moda para gritar que ninguém mais aguenta com sanidade (esses são os termos) tantos padrões nos bombardeando todos os dias.

Sem levantar a bandeira hipócrita de dizer que “não devem existir modelos”, pois nós, seres humanos, precisamos deles; extrapolem. Saiam do cenário fashion e olhem ao redor. Notem a quantidade de modelos “perfeitos”. Vejam suas amigas. Quantas delas já não se perguntaram como tal artista consegue estar linda dias, depois do parto? E quantas não fazem o possível e impossível para alcançar seu objetivo fitness? Injetam, tomam hormônios e sofrem de overtrainning. Quantas não fazem intervenções cirúrgicas, porque lindas mesmo são as panicats? E o “feminismo de farmácia, como diz a Juliana Cunha nomeia num post; um novo estilo de vida – a grosso modo – tentando nos convencer de que cool  mesmo é não usar muita maquiagem e não ser muito montada, porém esbanjar em tratamento e produto de beleza pode ou contente-se em não ter nascido assim; o que é ainda mais cruel.

Ah! E as modelos. As pobres modelos que o mundo acredita que vivem uma vida glamourosa, mas que veem muitas de suas amigas se drogarem, lidarem “bem” com assédio sexual e moral que por vezes acontecem, e sofrerem de transtornos alimentares para conseguirem campanhas e, no fim das contas, terem uma profissão que até hoje não é regulamentada.

Afinal nenhum modelo diz que a vida não é perfeita, nem você nem ninguém, nem mesmo a natureza. Que não é se esforçar menos para ser perfeito ou que ninguém deve ter padrão de nada. É a luta diária de aprender a lidar com a dureza de reconhecer e assumir quem você é.

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4 opiniões sobre “Rick Owens SS14 e um basta aos padrões

  1. Certamente eu estaria lá balançando a cabeça e curtindo tudo isso. Adoro toda essa ousadia (que não era para ser encarado como ousadia). Fantástico!

    Um beijo,
    Re

  2. Por uma questão de gosto pessoal eu não simpatizei muito com a apresentação, não achei bonita, mas ela é, sem dúvida, extremamente forte e importante por todos os motivos que você listou no seu post e que eu concordo totalmente. Eu tenho uma relação de amor e ódio por moda, enquanto trabalhava como modelo, queria morrer e matar e, certamente, teria a mesma vontade de falar as poucas e boas que essa vida profissional (se é que dá pra realmente dizer que é uma profissão, de tão mal regulamentada que é) é cruel… mesmo que eu tenha trabalhado por tão pouco tempo e feito pouquíssimas coisas, mas o suficiente pra dizer que chega. As melhores coisas que fiz foram sem agência, porque esses sanguessugas são terríveis e lidar com modelos deve ser pior que lidar com gente lobotomizada, porque elas, muitas vezes, acabam entrando no piloto automático dessa porcaria toda que é o glamour fake e o besteirol da moda. Por isso, achei incrível o Rick Owens fazer essa dança agressiva com modelos de todos os tamanhos, de diferentes etnias e quase que literalmente baixar um exu ali na passarela, expurgando meio que todo um rancor que tava guardado, sei lá hahaha… pisoteando tudo mesmo. Sei lá, as interpretações variam conforme o estado de espírito e vivência de cada um, mas o mais importante é que o designer foi na cara e na coragem e fez algo desse nível. Mesmo eu visualmente não tendo gostado, dou total apoio à idéia e ao conceito.

    FIERCEKRIEG

  3. É sempre muito bom ver alguém quebrando um paradigma, ainda mais nesse universo da moda, que – para quem está de fora, como eu – parece ser sempre tão igual e pouco reflexivo. Sensacional.

    E, Ingrid, com relação àquela sua disciplina de Turismo e Cinema, tem uma cidade específica que você queria indicações de filmes? Tem esse link aqui, com uma lista giga de filmes gravados em NY, divididos por ano: http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_films_set_in_New_York_City

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