Moça com brinco de pérola – Tracy Chevalier

moça com brinco de perola

Li “Moça com brinco de pérola” no ano passado, mas só agora consegui escolher para escrever sobre ele aqui. Esse exemplar veio parar nas minhas mãos como uma surpresa agradável: na minha cidade acontece um sarau toda última quinta-feira do mês dentro da Livraria Gutenberg, no final, eles fazem uma “libertação de livros”, o dono da livraria doa livros e você também pode levar para “libertar” e nisso fui sorteada.

Na hora em que ganhei o dono da livraria veio me contar que era um excelente livro, um best-seller e que o livro tinha dado origem a um filme que ele ainda não tinha conseguido assistir. Nesse mesmo momento me dei conta do livro que tinha nas mãos. Eu nem havia notado que era essa mesma história que deu origem ao filme Moça com brinco de Pérola” em que Scarlet Johansson representa a moça retratada no quadro – esse que é a capa do livro – e Colin Flirth o pintor Vermeer, filme que eu já tinha assistido e adorado.

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Voltando ao livro, a história foi criada por Tracy Chevalier em 1999, uma mulher apaixonada pela obra do pintor holandês Johannes Vermeer (Séc XVII) e que prometeu a si mesma rodar o mundo para ver todas as obras expostas do pintor. Nessa paixão incrível pelo trabalho dele ela decidiu encabeçar num sonho e escreveu o romance a partir de muita pesquisa, apoio dos próprios  holandeses e familiares.

Tracy Chevalier usa como uma base uma das teorias de que a moça retratada no quadro era uma das empregadas do pintor e a partir disso elabora uma ficção de que eles poderiam ter uma relação de confiança muito maior do que empregada e patrão. No livro vemos uma trama estabelecida em Delft (1665), cidade holandesa muito conhecida por sua tradição artística e por seus azulejos decorados. Griet, com 17 anos, se vê na situação de sustentar a casa após o pai – pintor de azulejos – ficar cego com a explosão de uma estufa.

Por necessidade, Griet se torna empregada dos Vermeer e logo o pintor observa a percepção intuitiva da menina pelas pinturas, cores, sensibilidade estética e até mesmo interesse nas relações entre mecenas e pintores. O relacionamento dos dois torna-se mais suave ao ponto em que ele encontra alguém para compartilhar o envolvimento com a pintura. O pintor sempre se viu incompreendido dentro da própria casa e por isso sempre está recluso, não aceitando que ninguém mecha em seu ateliê ou sequer veja o que ele pinta antes de que esteja pronto.

Percebendo a sensibilidade de Griet, Johannes a inicia na verdadeira alquimia das tintas e nos entendimentos das técnicas de luz e pintura – o que para mim é o grande fascínio do livro. Um prato cheio para aqueles leitores que querem ver a arte com novos olhos sem precisar ler um livro de Arte. Tracy escreve sobre materiais utilizados para fazer as misturas, fala pela “voz” do pintor sobre “ter olhos para ver” e num exemplo maravilhoso ele a diz para olhar para o céu e ver que a nuvem não é somente da cor branca, mas dependendo da incidência da luz pode ser cinza, rósea ou avermelhada.

Johannes também ensina Griet a observar as cenas pela câmara escura, objeto que mais adiante será utilizada para fotografar, e que dá melhores noções de iluminação e composição das imagens já que essas câmaras mostram as cenas enquadradas e numa outra escala. É o objeto que eleva o pintor a ser considerado, tardiamente, como o “pintor da luz”.

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Moça com brinco de pérola é um romance que mostra o tamanho da investigação da autora, conseguindo enxergar com os olhos da época e lidar muito bem com as contradições dos personagens. Entram questões como o mercantilismo, um cotidiano detalhado de ambas famílias, inferioridade da mulher, choque cultural dentro da mesma cidade e ao mesmo tempo contrapontos como o comportamento da Griet ao estreitar uma relação amorosa com seu patrão e aceitar ser pintada por ele sem querer ser chamada de prostituta por isso. É um livro visual, suave e que estimula nossa sensibilidade a cada estímulo dado a Griet. 

Para os que quiserem já fiz até uma busca no Estante Virtual para vocês ❤

 

 

 

Johannes Vermeer é um dos pintores responsáveis em usar a luz de maneira impecável. Muitos de seus modelos se posicionavam perto da janela e com a luz natural ele conseguia criar atmosferas íntimas em situações cotidianas, influenciando o que hoje vemos nas fotografias. Estudos dizem que o pintor valia-se das câmaras escuras para conseguis resultados como aqueles, sendo considerado por muitos o “pai da luz fotográfica”.

 

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5 opiniões sobre “Moça com brinco de pérola – Tracy Chevalier

  1. Isso que eu chamo de resenha! Excelente! (:
    Esse livro tá na minha fila de espera já faz um bom tempo, mas sempre acabo passando outros na frente. Depois do seu texto, acho que desse mês não passa. E que linda a iniciativa do dono da livraria Gutenberg! Todos os outros deveriam seguir o exemplo, apoiar mais a leitura e o desapego. Será que isso acontece em todas as livrarias Gutenberg?

    Beijos

  2. Eu nunca vi o filmes, nunca me chamou muita a atenção. Agora fiquei com vontade de ler o livro.

    Acho estranha essa relação do pintor com a empregada, não sei se era algo da época, mas vemos muito isso, da falta de apoio com a família ele acaba encontrando em uma pessoa completamente diferente dele. Já vi esse tipo de relação em outros livros e filmes.

    Adorei o post.

    Bjos e mais Bjos

  3. Eu sempre tive curiosidade de ler esse livro, especialmente depois que viajei para a Holanda e vi muitas obras lindas do Veermer (inclusive a Moça com brinco de pérola, que está no Mauritshuis em Haia). Também visitei a casa dele em Delft e fiquei encantada com tudo. Mas o pessoal não leva muita fé nessa história do livro por lá, todo mundo diz que é totalmente ficcional e que o Vermeer nunca teve essa relação com a suposta empregada. De qualquer maneira, ficção ou não, dá vontade de entrar nesse mundo do pintor por pelo menos algumas horas.

    Adorei a resenha Ingrid e fiquei curiosa: onde fica essa livraria? Fiquei morrendo de vontade de ir nesse sarau.

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