Blue Jasmine e o valor da marca

Hoje, dia 06, estréia no Telecine Premium o filme Blue Jasmine. Filme esse em que Cate Blanchett ganhou o Oscar de Melhor Atriz e ainda assinou o figurino em conjunto com Suzy Bezinger (dessa eu não sabia). Filme esse em que até hoje sou apaixonada e muito contente por ter sido o filme seguinte a Meia Noite em Paris (eu sempre pulo para Roma com Amor, porque acho que o próprio Woody deve ter remorso desse filme).

Para quem ainda não viu, sugiro muito. Sugiro tanto que estou escrevendo sobre ele e eu não costumo falar sobre filmes aqui. A minha relação com o cinema é muito conflituosa, confusa e um tanto recente. Porém, quando vejo um filme do Woody Allen, a coisa é muito clara pra mim (reparem que ele está até em um gif no meu blog), principalmente se tratando de um filme de roteiro tão direto e certeiro como o de Blue Jasmine.

Gosto de Canela - Blue Jasmine e o valor das marcas

A história é recente e como sou ruim em sinopses vou tentar resumir do que se trata para chegar logo onde eu quero:

Jeannete, ou melhor, Jasmine, é uma mulher adotada e faz sua ascensão social após se casar com um ricaço envolvido em artimanhas financeiras. Em meio a crise de 2008-2009 seu marido é preso, perde todo o dinheiro e termina se enforcando na prisão. Seu enteado a abandona e num cenário como esse ela tem um colapso nervoso que a leva ao internamento e ao – monstruoso – tratamento com eletrochoque. E com toda essa roda massacrante da vida, Jasmine tenta recomeçar e volta a morar com sua irmã do outro lado do país tentando enfrentar as dificuldades financeiras e os flashes de seu passado e traumas.

Com tudo isso, uma das coisas mais marcantes para mim nesse filme é o figurino. Não tem roupas mirabolantes do séc XVIII, nem figurino fantasioso, é um figurino de roupas do cotidiano, roupas de marca e de fast fashion, uma aula de valor de marca e percepção da identidade por meio das roupas.

Logo de cara vemos a Jasmine surgir na casa da irmã – que é de classe média baixa – vestindo um tailleur e colares de pérolas Chanel, e sua inseparável Birkin. Vemos uma Jasmine altiva, tentando se recuperar, mas sem perder sua noção de elegância e refinamento que essas marcas associaram a si mesmas. Ela ainda é o target (público alvo) dessas marcas, que deixou de ser financeiramente, mas sua identidade e seu gosto são associados a elas.

Ainda empobrecida ela é convidada a ir a uma festa e leva sua irmã. Jasmine aparece num vestido Carolina Herrera, outra marca com target de mulheres up town  e que ela insiste em usar; Jasmine vai trabalhar de recepcionista num consultório dentário usando sua Birkin; em outros momentos usa Ralph Lauren, Fendi e Hermès, e todo essas cenas me levavam aos cuidados das figurinistas, as aulas de Marketing de Moda e ao livro O Luxo Eterno do Gilles Lipovetsky e Elyette Roux (se quiserem que eu fale sobre livros de Moda ou mais teóricos assim, avisem nos comentários!).

Nesse livro lemos um panorama sobre o luxo nas tribos mais remotas até o luxo das grandes marcas, incluindo as de roupas, além de lermos sobre o marketing dessas empresas e suas estratégias para criarem seus nichos, identidades e valores a serem percebidos. É uma baita noção sobre o que somos atingidos o tempo inteiro.

Indo além da leitura, é muito interessante perceber realmente como o ciclo é como eles dizem no livro; as marcas precisam que você as use para esses valores serem associados e ao mesmo tempo você precisa percebê-los para poder se identificar, aceitar pagar o preço e usá-las. A marca significa e vale muito mais que seu preço; significa identificação, representação, estratificação ou inclusão, e se você não acha que vale a preço que pedem ou não se identifica com o discurso falado é porque simplesmente você não é o público alvo dela. Bem direto assim.

Nesse filme eu percebi claramente todas essas palavras e que talvez eu não teria entendido a importância daqueles símbolos na trama se eu não tivesse lido tudo aquilo; Jasmine é aquela pessoa que está em situações complicadas, mas não larga mão de estar sempre maquiada e bem vestida, aliás, usar aqueles acessórios e roupas é o que ela entende como parte do seu gosto, história e identidade, muito além da ostentação de parecer que está bem quando não está. E foi pela marca trazer tudo isso em seu discurso de marketing que a Cate Blanchett as usou, e por ter escolhido, todo o discurso é reforçado.

O filme é brilhante – sou suspeita porque adoro Woody Allen, mas o filme é realmente bom -. Cate Blanchett tem precisão e muito talento nesse papel, o que é peculiar da atriz. Não é um filme que te atordoa e ao longo da trama te faz ficar intrigado, pois a personagem de Blanchett é difícil e apresentada em camadas dentro da estória. É um ótimo retrato da decadência Norte Americana pós-crise de 2008 e descarte dos indesejados socialmente. É comum nas cenas ver moradores de rua, não por mendigarem, mas por serem mentalmente abalados pelas promessas não cumpridas do “american dream”; as mesmas promessas em que Jasmine acreditou.


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12 opiniões sobre “Blue Jasmine e o valor da marca

  1. Achei muito bacana a tua reflexão, e concordo plenamente. Minha irmã fez o TCC dela na área de moda, e lembro que na pesquisa ficou bem claro todo o contexto que existe por trás daquilo que a gente escolhe pra se vestir. E bom, eu sou apaixonada pelo Woody, demais (fiz um post só sobre ele uma vez, procura lá) e acabei que não vi Blue Jasmine ainda. Como aqui em casa sou só eu que gosto, acabamos sempre assistindo coisas que agradem os dois e Blue Jasmine ficou guardadinho na caixinha. Vou tentar assistir, principalmente depois do post. Beijos!

  2. Hey, Ingrid!
    Que post interessante. Adorei a forma que você abordou o filme e o tema do post: marcas. Gostaria, sim, que você falasse mais sobre livros de Moda! É muito interessante saber tudo o que está por trás.
    Esse filme está na minha listinha de filmes para ver há um bom tempo e, depois de ser o seu post, já até abri ele aqui para assistir.

    Um beijo. Boa semana!

  3. Eu ainda não vi o filme, mas agora depois da resenha vou procurar. Sua reflexão sobre a marca e a moda me deixou ainda com mais vontade de assistir. Eu nunca liguei para marcas, mas sei que elas envolvem o status de usar e se identificar com elas, o que faz com que se pague muito alto por isso. E sempre que passo numa loja de grife fico pensando nas costureiras (minha mãe é costureira). Quero assistir o filme com minha mãe que adora moda.

  4. Eu sou tão puxa saco da Cate que torci pra ela ganhar o Oscar como se minha vida dependesse disso, sem sequer ter assistido o filme. Me julga. Até hoje ainda não assisti (julgue-me mais) mas foi por pura falta de tempo. Adorei a forma como você falou do filme e acho muito válido você abordar o assunto mais vezes por aqui. E se quiser falar de moda de uma forma mais teórica, pode falar a vontade porque eu sempre estarei aqui prontinha pra ler tudo o que você tiver a dizer sobre o assunto ❤

  5. AMEI esse post em todos os sentidos. Primeiro porque é sobre filme do Woody Allen – que eu ainda não assisti – e gosto muito de quase todos que vi até hoje.
    Segundo porque amo figurino, mas não sou do mundo da moda, então sempre aprendo com o que você fala aqui!

  6. Adoro ver sua evolução por meio dos posts que leio no seu blog. Foi genial trazer o que você leu em seu livro e explicar a motivação da personagem, só me deu mais vontade de ver o filme e comentar com você!
    Bjos e mais bjos

  7. Bem, antes de qualquer coisa: “Filme esse em que até hoje sou apaixonada e muito contente por ter sido o filme seguinte a Meia Noite em Paris (eu sempre pulo para Roma com Amor, porque acho que o próprio Woody deve ter remorso desse filme)” HAHAHHAHA CONCORDO EM GENERO, NUMERO E GRAU.
    Bem, agora você me deu um tapa, porque assim, eu vi esse filme e percebi esse detalhe que ela simplesmente não abria mão das suas roupas de marca, bolsas luxuosas e etc, mas não fui capaz de fazer essa análise profunda que você fez, principalmente em “as marcas precisam que você as use para esses valores serem associados e ao mesmo tempo você precisa percebê-los para poder se identificar, aceitar pagar o preço e usá-las. A marca significa e vale muito mais que seu preço; significa identificação, representação, estratificação ou inclusão, e se você não acha que vale a preço que pedem ou não se identifica com o discurso falado é porque simplesmente você não é o público alvo dela.” Cara, vou te dar um abraço ❤ ahaahhaahahahahh
    Por fim, realmente, woody allen fez um retrato perfeito da situação americana pós 2008, e muito mais que mostrar que o american way "quebrou", ele reforçou como, de fato, os americanos enxergam isso mas não adaptam isso a realidade, sabe? Meio que eles veem que isso não é mais possível, pelo menos atualmente, mas poucos abrem mão do seu estilo de vida antes de 2008. Enfim, complicado.

    Adorei o texto e o enfoque totalmente original que você deu sobre o filme, sério. E cara, bate aqui, woody allen é o cara.
    Um beeeeeeijo.

  8. O filme é mesmo incrível. E mais incrível ainda é a Cate, personificando uma geração inteira subitamente obrigada a abrir mão de uma posição (financeira e socialmente) “superior”. Uma tapa na cara da sociedade esse filme. E essa sua reflexão me lembrou essa mini-matéria que eu li na Vogue, falando sobre o mercado de luxo e como ele se auto-regula aumentando exponencialmente o preço dos seus produtos, para manter um nível de “desejo” inatingível pela maioria: http://www.vogue.co.uk/news/2014/03/05/price-increases-for-luxury-items—chanel-louis-vuitton-bags

  9. Pingback: Gosto de Canela

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