A Borra do Café de Mario Benedetti

Mario Benedetti é um escritor uruguaio de Paso de Los Toro. Considerado um dos maiores escritores uruguaios, Mario Benedetti é plural: publicou poemas, novelas, contos, romances e ensaios.

Em 1945 ele começa seus trabalhos literários lançando o livro de poesias “La víspera indeleble”, trabalhou com jornalismo, e somente nos anos 60 alcançou seu devido reconhecimento após publicar o romance “A Trégua”, que é, sem sombra de dúvida, um dos meus livros favoritos.

E por conta desse meu gosto pelo autor e curiosidade quanto aos outros títulos, o Maldito Vivant me emprestou o romance “A Borra do Café”, lançado 1992 (meu ano de nascimento). Foram 48 capítulos breves, mas lidos com muito deleite. A Borra do Café é um romance de recordações, uma mistura de fatos autobiográficos com a imaginação e talento do autor; uma volta às origens, como em A Trégua.

Gosto de Canela - A Borra do Café - Mario Benedetti

Com uma narrativa simples – mas de longe nada simplista – vamos acompanhando a infância de Cláudio (um possível alterego), suas experiências nas constantes mudanças que ele e a família faziam, seu primeiro contato com a morte e com o sexo, sua paixão platônica pela professora particular, o primeiro amor e a relação com seus pais e amigos – tanto na infância quanto nos reencontros.

Na rua do Capurro é onde acontecem as histórias mais marcantes do livro: Claudio e seus amigos – que viviam sempre juntos – em jogos de futebol no Clube Lito e fazendo suas descobertas no Parque. É incrível perceber como as crianças de seu livro tinham outras disposições e desejos, o mundo era o bairro deles e não havia necessidade de mais que isso.

Ao longo do livro vemos a ideia de destino e futuro sendo construída na imagem da borra de café e da “leitura” dessa borra; há sempre uma duvida se o que foi visto na borra do café que ele bebeu significa realmente alguma coisa, para onde vão todas essas nossas certezas e acompanhamos com isso o amadurecimento do Claudio. Lemos principalmente sobre suas impressões da vida, sua relação com a exigência de uma formação acadêmica, o contato com o passado ao reencontrar um amigo, o enfrentamento com o destino e o acaso ao ganhar numa mesa de jogo e suas reflexões – e medos – sobre o ataque atômico de Hiroshima e Nagasaki. Os principais capítulos de uma vida “comum” sendo costurados maravilhosa e suavemente.

As personagens Rita e Mariana são as duas mulheres da vida do Claudio. Rita é uma menina que aparece em seu quarto no dia em que sua mãe faleceu, o “ajuda a se recuperar” dando seu primeiro beijo e em seguida desaparece; alguém que ele passa a vida a desconfiar se foi imaginação ou realidade, quase que a personificação do desejo e da dúvida na vida de um homem. Mariana é a mulher “real”, quem o acompanha, luta e torce por ele, é quem o apresenta ao tango e ao erótico, a concretude.

 Ainda restava uma dúvida: em que instante começara a sonhar? E também uma certeza: dali em diante, ninguém iria encontrar vestígios de Rita na borra do café.”

Ao final, juntamente com Claudio, não temos mais dúvidas de que o tempo passou (para nós e para ele) e como as palavras apenas eternizam o tempo – reais ou imaginados -, mas não o paralisam.


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14 opiniões sobre “A Borra do Café de Mario Benedetti

  1. Oi tudo bem?
    Tava lendo seus outros post, uma melhor que o outro sabia? Você escreve de uma forma que parece está na minha frente falando 🙂 bom demais isso. Ah, adorei o post de hoje não conhecia. Eu li até pra minha mãe!
    Beijo grande,

    Veja a última novidade do blog e me diga sua opinião!

    Maah Music – Você já conhece Agir? .

  2. Caaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara, você é uma das poucas pessoas que escrevem resenhas literárias que eu realmente me interesso e leio o post inteiro hahhahaah Até porque, você escreve maravilhosamente bem, então qualquer post seu é todo poético, né #meensina.
    Enfim, nunca tinha ouvido falar no livro, nem no autor. Acho que eu preciso pular a cerca com meu casamento monogâmico com a literatura russa (tem um três anos, com exceção dos livros de kafka e de madamy bovahy – que eu odeio, com todas as forças do mundo – que eu só leio literatura russa… mas isso é bem mais complexo, eu tenho uma fixação com esse país, em todos os sentidos imagináveis e que nada tem a ver com esse post então vou parando de falar) e conhecer outros autores, sobretudo os latinos, que morro de vontade de explorar mais.
    Vou procurar, de verdade, para ler.

    – ps: twwd: the way we dress hahhha

    beijokitas

  3. Que bela resenha! Sempre quis ler algo dele, mas sacomoé… a lista de livros só fica acumulando mais livros empilhados, assim como aqueles que vou comprando e vão ficando empilhados também, na prateleira. Dos uruguaios acho que só conheço o Galeano. Ah, e como amo Galeano. Beijocas!!

  4. Nunca tinha ouvido falar desse livro (shame on me), mas gente, que resenha deliciosa! Tenho uma pilha maior do que gostaria de livros pra ler e uma lista enooorme de livros que quero comprar, mas confesso que não resisto em adicionar mais um. E esse, certamente, já garantiu seu lugar lá.

    beijo!

  5. Adorei a dica! Não conhecia esses livros e acho que nunca ouvi falar nesse autor! Vou colocar na listinha!

    E respondendo seu comentário, siiiim! Faça mais posts sobre figurinos como aquele! Eu fico meio perdida nisso porque apesar de gostar muito, não sei nada de história da moda, sabe? Não sei fazer referências a épocas ou a estilos e acho que faz muita diferença! Eu curto bastante e vc tem meu apoio hahaha

  6. Devo confessar que conheço pouquíssimo da literatura uruguaia, preciso me redimir. Curiosíssima sobre o autor depois da sua resenha Ingrid. Queria ter tempo de me dedicar mais à leitura, especialmente de autores latinos, cujo trabalho estou suuuuper devendo uma dedicação especial.

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