A Moda em novos rumos?

No início da semana saiu uma matéria sobre mudanças importantes no cenário da Moda e que, consequentemente, marcaram o começo da semana de Moda de Paris. A semana de Moda mais importante da temporada internacional se iniciou com ares melancólicos e incertos: Jean Paul Gaultier anuncia este como seu último desfile para o prêt-à-porter e Didier Grumbach, presidente da Federação Francesa de Alta Costura e Pret-a-Porter dos Costureiros e Criadores de Moda, cede lugar ao Ralph Toledano – alto executivo do grupo espanhol Puig, responsável por perfumes para Nina Ricci e Carolina Herrera.

Ouso a dizer que após as famosas “Vanguardas” vemos a Moda – a do vestuário – representando a estética das décadas e não mais as Artes, somente. O eixo foi modificado. As influências, regras de mercado, noções de consumo, tudo foi redefinido a partir da Chanel, seu poder em sua própria imagem e nos “duplos c’s”.  Após algumas décadas, uma Grande Guerra e recessões, Yves Saint Laurent, deixa de ser o sucessor da Maison Dior e populariza as roupas “prontas para usar” ou, prêt-à-porter, desestabilizando as grandes maisons e toda a organização comercial a partir dos anos 60. A velocidade dos desejos, anseios, logo, do consumo, se torna outra. Ninguém quer mais esperar para comprar, o jovem entra no mercado consumidor, a “aparência jovem” surge e se arrasta até os dias de hoje como um momento a ser eternizado na mente e no próprio corpo – literalmente. A Moda se torna o termômetro do mundo.

Yves Saint Laurent em frente a “Saint Laurent Riche Gauche”: sua loja de prêt-à-porter.

Há tempos fala-se da Moda em crise, não somente em questões de números, mas como “instituição” – se é que posso dizer assim. Cada vez mais fala-se de consumo autoral, de “estilo próprio”, de artesanato moderno, produtos orgânicos, consumo por experiência, redução “do guarda-roupa” e o tão polêmico culto ao corpo. O fato de um criador como Jean Paul Gaultier, que revolucionou a Moda com seus sutiãs pontudos e todo seu trabalho extravagante, decidir focar num nicho (o de Alta Costura) que sobrevive de vender acessórios, cosméticos e principalmente, perfumes, evidencia o que o filósofo francês Gilles Lipovetsky, em 2005, falava em seu livro “O Luxo Eterno” – que o culto ao corpo significa uma desvalorização dos valores de marca, o luxo passa a ser entendido no bem-estar e experiência, criando assim, um nova noção de luxo e não o fim dele.

É claro que as grandes grifes não estão assistindo esse declínio sem fazer absolutamente nada. Um verdadeiro exemplo disso são os dois (!!) filmes sobre Yves Saint Laurent, exposições e livros sobre Dior, seriados e filmes sobre Chanel etc, em ritmo mais intenso de 2 anos para cá. Tudo isso, propositalmente ou não, reafirma a narrativa de suas histórias, mantem viva a lembrança desses grandes nomes, mentes e, e por associação, suas marcas.

Você pode estar lendo e achando que isso não quer dizer muito, mas sinto avisar: numa sociedade que tem a moda como principal engrenagem – digo moda como não somente a do vestuário – essas mudanças podem significar sinais de problemas maiores vindo por aí. Você “gostando” de moda ou não, você é atingido por ela o tempo todo, e ser “anti-moda” pode não mudar muita coisa.

Num mundo beirando uma crise energética, alguns países já apresentam dados econômicos de possíveis recessões, o dólar em alta, a China firme no comércio externo e a Moda apresentando sinais de crise e inseguranças sobre seu futuro estrutural. Se a “regra” se confirmar daqui uns poucos anos vamos ver muitas mudanças, dentro e fora do mercado fashion.

Sendo assim, é desse jeito que vamos fechar a semana de Moda de Paris e também 2014: aguardando o desfile de despedida de Jean Paul Gaultier ( que acontece hoje) e mais incertos ainda sobre os rumos que vamos tomar.

 

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4 opiniões sobre “A Moda em novos rumos?

  1. Realmente o mundo está passando por uma grande transformação dado a essa crise que beiramos, tivemos sinal de recessão na crise imobiliária americana e depois com o enfraquecimento do EURO. Mas algo maior está por vir, algo que vai abalar as estruturas de tudo que conhecemos. Não é um sinal de que o capitalismo está falido como a maioria dos intelectuais defende, acho que ele apenas vai esfriar para se reiniciar assim como aconteceu em 29.

    Bjooos e mais Bjos

  2. Ingrid, tudo o que não sei sobre moda, aprendo aqui com você! Sério, haha!
    Tenho curiosidade, sei que afeta nossa vida, de forma indireta ou direta, e acho ótimo que você aborde esse assunto por outros aspectos, sabe? Não sou da moda, no sentido de que não fico pensando sobre isso, não tenho vontade de escrever, etc. Mas não é que não goste do assunto ou que não goste de comprar roupas haha Mas ultimamente quase não tenho visitado mais os blogs de moda que eu costumava porque, sei lá, me interesso por mais do que looks do dia.
    Enfim, tudo isso só pra dizer que adoro seus posts sobre moda hahaha

  3. Eu sou dessas expectadoras passivas, que não acompanha o mundo da moda muito ativamente, mas que, é fatalmente afetada pelas mudanças e crises no meio. Sempre bom saber um pouco mais sobre o assunto com você Ingrid!

  4. Eu já acompanhei muito o mundo da moda, mas hoje fico meio alheia a tudo isso, sei lá porquê. Mas é impossível dizer que a gente não acaba sendo afetado por essas mudanças, por mais distante que esse universo pareça. A questão é que as pessoas costumam tratar a moda como pura futilidade, quando ela vai muito além disso. E nesse ponto, fico feliz que blogueiras ainda se atentem a falar do assunto de uma forma que não reforce esses estereótipos e que valorize o conteúdo, como você está fazendo agora. Orgulhinho, viu? ❤

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