Há vida além do tamanho 42

Há mais ou menos um ano quando decidi usar toda roupa que eu tiver vontade, não importando se é “proibido” ou não para quem tem quadril largo e 1,63cm, eu comecei uma guerra contra as lojas de roupas e teoricamente contra a indústria na qual quero trabalhar: a Moda.

Com a decisão de ser eu mesma, assumir meu quadril 46, e querer usar calças azuis, estampadas, alaranjadas e camisetas que não sejam coladas ao corpo eu me encontrei num tormento que é achar roupas acima do 42 quando são lojas de marca (mesmo eu usando quase nenhuma as vezes quero aproveitar as liquidações, né) e acima de 44 nas lojas fast-fashion. 

Nas lojas de marca beira o ridículo porque você quase ofende se você entra na loja e diz que é algo pra você. As vendedoras na maioria te olham da cintura pra baixo e dizem “não trabalhamos com tamanhos grandes”. Queria dizer pra elas que o conceito de grande é relativo e que uma marca brasileira não trabalhar para vestir o corpo da mulher brasileira é loucura, mas evito a fadiga. Mudo de loja e o discurso é o mesmo. Ou pior: “Ah! Você veste esse número em que marca?” e eu penso “Lá vem o Inferno de memorizar em qual marca eu visto o quê. Já não basta as trocentas senhas? Ou será que ela tá me tirando já que eu não consigo vestir marcas porque nenhuma trabalha com números maiores que 42?”.

No começo, quando decidi me vestir como bem entender era bastante complicado. Eu chorava no provador quando a roupa não cabia, saía me achando rejeitada, a ridicularizada e incomum que quer ter um corpo fora do padrão e ter o direito de consumir como quem é “normal”. Só que aí, depois de tanta maquiagem borrada e espera no provador para os olhos ficarem menos inchados, eu acordei pra vida, mandei as marcas cariocas e tantas outras pro inferno com seu “lifestyle” e virei a mesa. A culpa não é mais minha, é da empresa que perdeu um consumidor. O meu corpo não é o incomum, pelo contrário. Nós não somos tão esguias quanto as europeias – para o lamento e desespero das marcas brasileiras que ainda insistem em criar para as europeias vestirem; querem olhar pro mundo todo sem nem ao menos abrir a janela e ver sua própria rua, com o perdão da metáfora.

Eu não sou obrigada a querer ser como é o público alvo de 99% das marcas cariocas – para elas todo mundo do Rio anda de “long”, bate palma pra pôr-do-Sol, usa top cropped e paga uma de “hippie de boutique” e se você não é, no mínimo se identifica com isso. Na realidade, o que mais me incomoda nisso não é a escolha de público delas (toda marca DEVE fazer isso, aliás), o que me deixa enfurecida, é você não ter a opção de comprar porque não querem que você vista as roupas só por conta do tamanho do teu corpo. E se eu, Ingrid, vestindo 46 tivesse o perfil da marca? O que as minhas medidas significam na realidade? É só economia de tecido ou tem mais fundo social envolvido nisso? O que uma mulher de quadril “estreito” significa para essas marcas que uma garota de quadril largo não seja? 

E com todas essas minhas perguntas vem alguém que me diz “Ah mas você pode usar a marca X, Y e W”, e eu sou obrigada a responder que eu não quero migalha enquanto poderia ter um mercado inteiro. Será que de todas as meninas que vestem tamanho 46 ou mais tem o mesmo perfil? É só parar para pensar na quantidade de roupa “para gente de quadril estreito” que você vai notar a infinidade de perfis; então por que eu tenho que ser restrita a uma arara de “tamanho especial” numa loja de marca ou numa fast fashion?

Por sorte, ou inteligência mesmo de alguns nas fast-fashions como Marisa e Riachuelo, nos últimos meses tenho encontrado mais variedade de estilos e peças em tamanhos acima do 44. Tenho conseguido me vestir de um jeito mais meu, mais clean e mais confortável sem viver somente de calças pretas, camisetas desproporcionais e vestidos mal modelados. Por conta da minha “revolução fashionista” eu aprendi a me gostar de saia longa, saia florida, calça saia, vestidos longos e curtos, me libertei dessas amarras toscas e que parecem ter saído do Séc XVIII.

Mas e aí? Será que vou ter que passar minha vida toda me vestindo de fast-fashion porque essa fatia do mercado as marcas não querem como se eu não fosse “cool o suficiente”? Eu descobri que há MUITA vida além do tamanho 42. Quando será que as marcas, principalmente brasileiras, vão descobrir isso também?


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13 opiniões sobre “Há vida além do tamanho 42

  1. Legal que você conseguiu se achar, lembro que você ficava brava com os provadores e você me contava como isso te afetava, legal ver essa melhora! 42 é apenas mais um número! Saia longa é bem legal, eu apoio a causa!

    Bjose mais bjos

  2. Me lembro também da sensação de entrar em um provador e nada ficar bom o suficiente pros meus olhos que queriam enxergar um corpo diferente do que eu tinha. Era um sofrimento ter que comprar roupas.. sabia que o dia ia terminar e eu estaria me sentindo mal. Tenho me sentido cada vez mais liberta desses ideais e desses padrões. Ainda sofro com eles, mas tenho me sentido cada vez menos enlouquecida com essas cobranças.

    Cheguei a usar 44 e passei por isso que você comentou. Hoje em dia uso 40 e fico simplesmente impressionada quando o MAIOR tamanho da loja cabe em mim e não existe nenhum outro maior que ele. Chego a ficar triste com isso.. essa sociedade com valores tortos. Entendo que as marcas não querem vincular a imagem delas com pessoas gordas (sendo que cada um tem um conceito diferente sobre o que é ser gordo ou não e ainda, associa uma série de valores diferentes, bons e ruins, a essa característica… enfim). Maaas, o que teria de mal em uma pessoa gorda representando e vestido as roupas das lojas? Isso poderia afastar clientes que têm a magreza como norma? Ah… eu entendo os motivos que as lojas têm pra fazer isso, só não concordo com eles, acho um absurdo e fere grande parte dos meus princípios morais de valorização da diversidade, do respeito, independente de quais características a pessoa tenha. GENTE! Características físicas!! Como assim querem decidir isso por alguém, né?

    Já vi gente comentando com blogueiras que fazem look do dia que não têm um corpo super magro dizendo que elas são maus exemplos para outras pessoas. Sério?? Elas têm que dar exemplo de como as outras devem aparentar fisicamente? Aonde está escrito que usar tamanho X ou Y é certo ou errado?? E aí me vem com desculpa de que é uma questão de saúde!

    A gente (como sociedade) ainda tem muuuuuuuito o que aprender…

  3. Olha, concordo com o comentário acima: a sociedade ainda tem muito o que aprender, ou melhor, evoluir. Na verdade, lá pelo século XVIII, usar tamanhos 42, 44, 46 era o esperado e o que atraia o público masculino. Ninguém queria saber das magricelas que usavam 34. Teria que fazer uma análise história E sociológica pra saber os motivos disso ter mudado, ou pra entender os motivos de existir um padrão. Não é tão linda a pluralidade?? A diferença, o diferente? Me dá calafrios quando penso que tem certas coisas que são feitas baseadas numa forma, e é adequado e ideal que de alguma maneira nós nos encaixemos nela. E se tua pretensão é trabalhar no mercado da moda, que se não houver pessoas que mudem isso antes, que seja tu a mudar 😀 :***

  4. Também sempre tive esse problema, desde pequena sempre fui muito mais alta do que a média, tenho quadril largo e pernas grossas. Ultimamente, meu grande problema tem sido encontrar uma bota over-the-knee que caiba na minha panturrilha de absurdos 46cm. E o negócio é: eu não me acho gorda, não acho que eu tenho que emagrecer, e gosto do jeito que as roupas cabem em mim. E mesmo assim, quando eu tenho um problema como esse, de não caber no padrão de uma marca, eu sou tratada como se o problema fosse eu, como se eu não tivesse força de vontade suficiente pra me esforçar e perder peso e me encaixar, ao invés de ser um problema da marca.
    Isso não é um problema brasileiro também. Fazem dois meses que eu moro na Itália e aqui a dificuldade é igual. Mas acho que isso é algo que vai ser mudado aos poucos. E concordo com o que a Patrícia aqui em cima disse, a moda está precisando de pessoas com a sua reflexão.
    Dá uma lida nesse artigo aqui: http://www.theguardian.com/fashion/2013/jul/05/vogue-truth-size-zero-kirstie-clements
    Li há alguns dias e não tenho conseguido tirar esse assunto da cabeça.

  5. Vixe, Been there, done that =/
    Chorar e sair frustrada de um provador ou até mesmo numa troca de roupas em casa já fez parte do meu passado não tão distante. Emagreci, me senti melhor e mais bonita. Mas eu também poderia me sentir bonita quando era gordinha. Esse cenário padronizado da moda precisa entender isso. Que mulheres com manequim 40 e tantos também são e se sentem bonitas do jeito que estão! Por que tanto cu doce, hein? Desculpa a palavra, mas nossa. Revoltante porque sei como é ruim, sabe…
    Quando será que as marcas, principalmente brasileiras, vão descobrir isso também? Quando não sei, mas tem que ser pra ontem çabagaça!

  6. Eu sinceramente não consigo entender o porque das marcas não investirem em tamanhos acima do 42, especialmente porque a maioria das mulheres veste exatamente esses tamanhos. As marcas curtem perder mercado, perder dinheiro, é isso? Não dá para entender…

  7. Lembro de uma matéria onde uma moça se propunha a provar o quanto é dificil (para não dizer impossivel) achar uma roupa 46/48 num shopping para ir a um evento social. Nunca vou esquecer a parte em que, numa dada loja, a vendedora fez o possivel e impossivel para tentar encontrar algo e, vendo que nada servia, começou a chorar pela cliente. Empatia ainda existe.

  8. Eu adoro ler teus textos, principalmente em tempos em que os blogs fitness bombam e que as pessoas são criticadas por todo lado se não tiverem um “estilo de vida saudável”. Aí eu me pergunto qual a definição de “saúde” que a maioria das pessoas tem hoje em dia. E quando leio teus textos, acredito que ainda há esperança no mundo, acredito em pessoas que não se sentem obrigadas a seguir a tabela imaginário do “padrão social” e são felizes assim. Quer coisa mais saudável do que felicidade?
    Parabéns, bonita! =*

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  12. Sábado fui à algumas lojas e fiquei me perguntando: o que é esse tamanho G vendido hoje em dia? Sério, uma grande aberração. Às vezes tenho a impressão de que só querem destruir a autoestima da mulher. Quem nunca se decepcionou ao entrar num provador? Não existe.
    Você é uma inspiração, espero que mais pessoas com essa mentalidade passem a trabalhar para desconstruir esse conceito de moda da minoria ai.
    beijos

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