Lolita – Vladmir Nabokov

Achei que nunca fosse conseguir escrever sobre esse livroPor mais que outro título tenha um lugar cativo em meu coração, eu alimento o desejo de tatuar trechos de Lolita em mim, literalmente. E quando me envolvo assim com algo é sempre muito difícil escrever, falar ou expressar minhas opiniões.

Uma das histórias mais envolventes e desafiadoras da literatura (e da minha vida). Um romance entre um francês de 40 anos e uma enteada de 12, um pedófilo apaixonado, sensível e culto; um “predador” paciente, vítima do destino que se vê incontrolavelmente apaixonado por Dolores Haze. Humbert Humbert é ácido, irônico, um argumentador perspicaz que não consegue conter seus desejos pela menina americana que já é dona de um amadurecimento precoce. Muito superficialmente  é esse o enredo de Lolita; um livro, em formato de memória, que como o Ferds diz, é a “alegoria do pecado”.

Gosto de Canela -Lolita - Vladmir Nabokov

Não sou boa em contar histórias e por isso nunca conto muito do livro por aqui, e, no caso de Lolita é até melhor que não se conte. Não é para qualquer um ler Lolita; não digo que seja para “iniciados” ou algo do tipo, mas para quem é dono da verdade ou disseminador da moral vai ser torturante ler alguém desejar tanto um menina, saber do mal que a causa, mas sua paixão (no sentido mais literal da palavra) é mais forte e cala sua consciência. Humbert Humbert é alguém que assume seus erros em seu livro, que expõe seu pecado, sua doença como ele mesmo diz, mas não quer ser objeto de pena.

Lolita foi sim vítima, e não uma menina extremamente sexual como a dos filmes, porém, Lolita além de ser vítima do Humbert, é também da “nova” sociedade americana com mais uma faixa consumista: os adolescentes. Nos 50’s cria-se a adolescência, momento em que se começa a descobrir que se tem um corpo, vontades, e aquela furor de não ser como seus pais. Os anúncios passam a também ser pra os adolescentes, as publicações passam a atraí-los, novos produtos desenvolvidos, destinos turísticos, Moda e tudo isso atinge Lolita (uma pré-adolescente) parecendo causar, também, um amadurecimento precoce; aliás, ter decisão de compra é também uma manifestação de amadurecimento. E, claro, o Humbert se aproveita disso.

Carreguei comigo para todos os lugares que ficou assim a jaqueta dele.

Carreguei comigo para todos os lugares que ficou assim a jaqueta dele.

Lendo um livro de um autor clássico eu tomo dois rumos sempre: o de observar o enredo em si e o de perceber o estilo do autor. Talvez eu deva fazer isso todas as vezes que leio, mas com os clássicos fica mais intenso e minucioso. Gosto de autores que notam as palavras, gosto de boas metáforas, comparações e sinestesias, na verdade acredito em existir muitos escritores por aí que não gostem de palavras, que não percebam como elas soam na nossa boca e como elas podem se transfigurar em sentidos diversos; e Nabokov me deu isso logo no começo de seu romance:

Lolita, luz de minha vida, fogo de minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

O prazer de ler algo escrito dessa maneira me fez reler tantas vezes que perdi as contas; e até agora, copiando e colando esse trecho, eu não consigo não parar o que estou escrevendo para voltar e reler . O estilo de Nabokov é visto logo na primeira página: acidez, ironia, autocrítica e uma imensa capacidade de observação; trata de um tema crítico de um modo voraz, apaixonado, forte e real, um relato de alguém que via a dor de sua presa, mas a ideia de perdê-la era pior do que ver seu pesar.

O livro prega peças em você; Humbert tenta argumentar ao melhor que pode e no fim, você não sabe se ele se julga louco por conta do determinismo social ou se ele era um homem traumatizado por um romance “mal resolvido” em sua adolescência com uma menina de 12 anos. É tudo tão fluído, vibrante, excitante e, num dado momento, doloroso que você se pega pensando “É uma memória do próprio Nabokov“, porém, no fim das contas estamos lendo “somente” um autor de um talento imenso, capaz de tornar uma história de perversões, dúvidas e desvios morais em algo passional como uma carta de amor incendiária.

Muitos perguntaram ao Nabokov se havia uma “lição de moral” em “Lolita” e  em uma das repostas, ele demonstra o domínio de sua arte e estilo:

 “Há almas gentis que afirmam que Lolita não faz sentido porque não lhes ensina nada. Eu não sou nem leitor nem escritor de ficção didática, e, a despeito da afirmativa de John Ray, Lolita não traz em si nenhuma moral. Para mim uma obra de ficção só existe na medida em que me permite o que eu vou chamar desajeitadamente de êxtase estético, que é a sensação de estar de alguma forma, em algum lugar, ligado a outros estados do ser, onde a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) é a norma.”  

Não há como ler Lolita munido de moralismos e condenando como “apologia a pedofilia”; é apenas uma obra, maravilhosamente dotada de erotismo, completamente bem escrita e adjetivada. Um livro para ler inspirado na declaração de Oscar Wilde quando acusado de homossexualidade devido a obra “O retrato de Dorian Gray”:

Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos.

O meu exemplar eu comprei na Capolavoro Livros, um sebo em Petrópolis-RJ, e custou 16 reais com frete. Tô indicando porque a Luciana é incrível e locais bons para comprar livros são sempre válidos. E ainda vem com um bilhetinho lindo, olha só ❤


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9 opiniões sobre “Lolita – Vladmir Nabokov

  1. Achei excelente a sua resenha, acho que você demorou muito para ler! Você leu uns 3 anos depois de mim. Eu gosto muito do Humbert Humbert, acho que na literatura ele pode ser tido como um dos maiores predadores! Isso do sentimento de não largar é estranho, ele sabe quem é, mas não quer mudar! E olha que em vários momentos ele tem essa chance!
    Adorei essa correlação que você fez com o consumismo! E é uma verdade!
    Fico feliz que você gostou do livro e pensando bem hoje você é mais madura para ler o livro!
    Bjoos

  2. Lindo lindo lindo. Tenho vontade de ler esse livro. E fiquei ainda mais depois de ler sua resenha. O trecho é maravilhoso e a resposta do Nabokov sobre o estilo dele é assim de morrer de tão incrível, pois me sinto assim também em muitos aspectos da vida. Essa sensação de pertencimento relacionado à estética.

    Já li “O original de Laura”, que mostra mais o processo de criação do autor do que uma história em si. Foi um livro que ele deixou inacabado, apenas em pequenas notas. Parece que ele não queria que fosse publicado, caso morresse antes de terminar. E foi esse dilema incrível até que foi publicado pelo bem maior dos estudos literários! É bem interessante e imagino que deva ser mais ainda para quem já leu outras obras dele! 🙂

    No momento estou lendo “A Hora das Bruxas” da Ana Arroz (a.k.a. Anne Rice). Ela escreve de um jeito impressionante de tão bom! Uma das melhores autoras de literatura fantástica! Xenial demais! Se estiver à toa na vida e quiser ler alguma coisa diferente, recomendo!

    ;***

  3. Taí um clássico que eu ainda não li, mas tenho muito vontade. Gostei muito da sua resenha principalmente pela questão “moral” envolvida (ou não). Adoro sinestesia e autores que transmitem suas impressões com gostos entre as palavras, acho que vou gostar de Nabokov.

  4. Não li o livro nem tampouco vi o filme, mas sempre tive vontade, sabe? Não é a primeira vez que leio uma resenha sobre Lolita e os elogios são sempre infinitos. Mas sem dúvida, não deve ser um livro pra qualquer pessoa. Eu não tenho muita frescura e raramente julgo, muito menos condeno, histórias e/ou autores por causa de um assunto polêmico, exótico, às vezes até repugnante. Numa visão completamente leiga, leio a citação do livro e só consigo pensar em uma história dolorosa, mas ainda doce, mesmo que de uma forma estranha e questionável. Não enxergo apologia, mas entendo o apelo e, de fato, fica fácil cair no pensamento comum. Gosto muito de autores que se arriscam, que saem do politicamente correto e se jogam em temas ~duvidosos~, e a conclusão que fica dessa divagação (minha) é que eu preciso ler Lolita, tipo ontem. E chega que eu tô viajando já.

    AHHHHHHHHHHHHH E OBRIGADA POR ME INDICAR. Quem tem boca vai a Roma, dizia minha linda mamãe e a partir de hoje eu acredito porque não só ganhei uma indicação, como ganhei uma indicação ESPECIAL. Bjs, tô me sentindo demais ❤ pode me indicar sempre que eu vou amar s2s2s2

  5. Primeiro de tudo: Que lindo esse bilhetinho da vendedora. Já me conquistou.
    Segundo: Amei seu post sobre o livro, é a primeira vez que leio uma resenha que forma tanto a minha opinião sobre algo que não li ainda. Não que seja definitivo, posso mudar de pensamento depois de ler. E outra, esse trecho que você colocou é realmente incrível. Que talento!

    :**

  6. Mas que bela resenha! Totalmente esmiuçada, e praticamente degustada por ti, enquanto escrevias. É muito bacana ver alguém tão apaixonado por um livro, sobretudo um clássico que parece ser bem denso. Aconteceu de tu ir reparando em certos detalhes novos, conforme ia relendo? Eu vi o filme do Kubrick e achei bem interessante, apesar de ter aquele Q de transtorno ao ver o quão obcecado o professor é por Lolita. E com certeza o livro deve trazer isso com mais intensidade ainda. E que recadinho mais fofo, deu até vontade de comprar algo da loja mesmo! Ainda mais sendo sebo, adoooro um sebo hehehe. Beijos!

  7. Quando eu li Lolita, eu devia ter uns 15,16 anos e eu o li de forma totalmente romantizada. Pra mim era um romance incrível mas depois de ter amadurecido eu percebi do quanto Lolita não é uma história de amor, e sim a história de um pedófilo. E é muito engraçado como a escrita de Nabokov nos faz criar uma compaixão por Humbert, criando pena e um desejo de tentar entendê-lo. Hoje eu sei que é uma história horrível escrita de uma forma incrivelmente bem. Sou apaixonada pela escrita, pela forma como Nabokov criou Humbert e sua escrita, mas ao parar para pensar sobre tudo, é muito triste. Mais triste ainda como, no filme de 97, Lolita é representada como uma adolescente sexualizada e mimada, dando a impressão de que ela é quem sempre provocou Humbert enquanto ele era apenas um homem solitário apaixonado que caiu na sedução da pequena Lolita, a amando sem reciprocidade e tentando cuidar dela. É muito complicado falar sobre esse livro porque ele carrega um peso enorme, retrata uma realidade complicada de forma bem escrita, o que nos faz apaixonar mais ainda pelo contexto inteiro. Lolita é meu livro preferido por inúmeras razões mas o fato de como o enredo não é bem interpretado na primeira leitura, me assombra até. Se você não tiver assistido o filme de 1997, assista! Vai ver como essa história é romantizada de forma totalmente errada, distorcendo uma história de um pedófilo e sua vítima para a história de um homem apaixonado e um amor não correspondido.

    Beijo!

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