Histórias de Paris – Mario Benedetti

Nada mais justo que Histórias de Paris de Mario Benedetti para ser o primeiro livro em que falo minhas impressões nesse ano. Li em 2014, finalzinho dele na verdade, mas só agora achei um espaçinho para falar sobre o livro aqui.

Histórias de Paris é um livro póstumo; são 4 contos retirados de outras obras do autor e que possuem um assunto em comum: um exílio em Paris durante os anos 70 por ir contra a ditadura uruguaia. Já falei diversas vezes aqui o quão sou apaixonada pela obra do Mario Benedetti e esse livro, o único dele na livraria onde trabalho, não poderia deixar de ser lido.

É um livro pequeno, com ilustrações de Antonio Seguí, publicado pela Biblioteca Azul (Editora Globo); um livro com páginas vermelhas, desenhos expressivos e textos de um sentimento tão grande que tive remorso de não ter comprado.

Gosto de Canela - Historias de Paris - Mario Benedetti

O primeiro conto do livro é “Geografias“, retirado do livro também chamado Geografias (84); um conto delicado em que os dois personagens, sentados num café em Paris, jogam um jogo em que devem lembrar de aspectos geográficos do Uruguai como por exemplo qual comércio há em determinada esquina, quantas janelas há num tal prédio público. Coisas essas que ajudam a matar a saudade da pátria e ao mesmo tempo não os permitem esquecê-la, uma geografia sentimental da cidade e de como sem perceber nos apegamos a detalhes mínimos de nossa casa. Ao longo desse jogo, surge uma mulher, uma velha amiga. O personagem principal segue o caminho de casa com ela e sem o amigo. Ele, a princípio, a via tão linda quanto na juventude, tão linda quanto antes da ditadura e do exílio; o mesmo sorriso e segurança. Até que começam a conversar e, finalmente, o silêncio e a memória do que sofreram na ditadura, das torturas, amigos perdidos e partes deles mesmos que nunca terão de volta, surgem junto com o olhar vazio da mulher. Um conto breve, com diálogos ainda mais breves, mas com muita, muita sensibilidade.

Cinco anos de vida é o conto mais longo do livro, retirado do A morte e outras surpresas (64), e além de ser o mais longo é o único que trata de uma certa metalinguagem, das dificuldades de amar por um longo período de tempo e de quando não se reconhece mais quem está ao seu lado. O personagem principal está em crise, não consegue escrever e tem uma ideia para um conto. Conto em que ele se vê vivendo, conhecendo uma mulher, compartilhando o estranhamento em Paris, as dificuldades com o idioma e em ter amizades que não sejam latino-americanas. Ao longo do texto ficamos na dúvida se a história ainda é o conto criado pelo personagem ou se já se tornou outra coisa e, por fim, temos uma reviravolta “benedettiana”, se é que posso dizer assim.

Em O hotelzinho da rue Blometestá em Com e sem nostalgia (77); lemos a história de um casal que se reencontra após anos de separação devido a escolhas políticas durante a ditadura uruguaia, são perseguidos, torturados, e exilados. Se reencontram, mas tem outras vidas, outro passado e um presente envolvido com novas pessoas; a única coisa que não mudou foi o sentimento de que o relacionamento deles foi separado a força e não por vontades próprias. Um conto que mostra a dureza de continuar vivendo e amando mesmo quando há decisões duras a tomar; mesmo quando “te partem em pedaçinhos”.

No “Só por distração”, também do livro Geografias é onde vemos mais claramente as incertezas, a fuga nas palavras, o sentimento nostálgico, doloroso e tragicômico de alguém em exílio. Dessa vez lemos um homem que decide sair de seu país por ter sido abordado sucessivamente por 4 mendigos; por ter visto a pálpebra de um ministro tremer quando ele disse a palavra “paz” e quando viu Cristo chorando, caído numa Igreja. Um homem que segue distraído, chegando a países sem saber muito bem onde estava; que não embarcava, pois estava distraído vendo os aviões decolando e não ouvia seu voo sendo chamado; um texto que se encerra com esse trecho:

Quis se aproximar de uma mesa que havia no meio da sala, mas de repente não viu mais nada. Alguém, por trás, havia lhe colocado um capuz. Foi então que percebeu que, só por distração, estava de novo em sua pátria.

Tinha tudo para ser uma obra piegas, com textos repetitivos, desses típicos que os autores fazem em exílio, mas, com certeza, não é. Esse livro serviu para me mostrar o lado fortemente observador do Benedetti (talvez por isso eu goste tanto dele) e de como ele é capaz de transformar em palavras sutis e simples sentimentos tão difíceis e complexos. Um livro curto que fala das dúvidas e falta de concretudes – sentimentais ou políticas – sem deixar de apontar a força de cada um dos personagens ao pagar o injusto preço por buscarem tempos melhores. 


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5 opiniões sobre “Histórias de Paris – Mario Benedetti

  1. Agora vc está a um passo a frente, leio mais livros dele do que eu. E nem pra vc comprar…rdrs o terceiro conto deve ter sido dolorido de se ler. Quero procurar esse! O primeiro conto deve ser muito bom. Bjos e mais bjos Gracinha leitora

  2. Ingrid, adorei a maneira como tu te refere ao autor e a visível empolgação ao relatar cada um dos contos. Empolgação com ar de admiração. É muito legal ver o quanto tu és fã do Benedetti e cada vez que tu traz algo dele aqui me sinto ao mesmo tempo culpada por não ter lido nada dele ainda e cada vez mais inclinada a ler. O exílio era algo que marcou profundamente muitos intelectuais e mesmo sendo triste, é muito interessante entrar em contato com isso. Beijo beijo!

  3. Pingback: As 10 coisas mais legais do meu mundo | Gosto de Canela

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