Alienação no guarda-roupa existe

Você conseguiria me dizer por que usa um tênis All Star? Por que você usa batom roxo ou camiseta xadrez amarrada na cintura? Se você somente compra roupas ou consome Moda?

A primeira resposta pode ser “porque eu quero; porque eu acho bonito”, mas vamos lá. Somos mais inteligentes e reflexivos que isso. Eu, particularmente, adoro quando perguntas como essas surgem, gosto de reparar no tom desafiador de quem pergunta e na fala, por vezes segura até demais, de quem responde.

Nós usamos roupas por conta de alguns (supostos) pilares: proteção (contra objetos ou clima), pudor, identidade coletiva e aceitação social. Focando nos dois últimos pilares, olhem para as comunidades tribais e reparem as roupas e pinturas corporais (essa última também é um tipo de roupa) em momentos de caça, trabalho ou rituais. Cada tribo possui seus desenhos, cores e materiais para se identificarem entre si e se destacarem de outras – e nós, um outro tipo de organização, fazemos o mesmo.

Em todo momento da história, a roupa e a Moda (que não necessariamente é de roupa) esteve presente como um elemento importantíssimo da nossa consciência de corpo, sexo, individualidade, aceitação e da nossa sensibilidade em relação ao outro – “quem se veste diferente é estranho a mim”.

Cada cor de batom escolhida, cada tendência lançada, cada sapato e bolsa usado nas ruas tem seu significado atribuído por nós mesmos – como nas tribos. Eu, você, a mídia, todo mundo constrói consciente ou inconscientemente esses significados e sentidos (úteis, estéticos ou simbólicos) em relação a esses objetos, tornando nada do que você usa inocente.Gosto de Canela - Alienação no guarda-roupa

Uns podem achar o assunto “superficial, sem importância e desnecessário”, como quase tudo que é relacionado a vestuário, porém, sem ser repetitiva, já que a roupa é parte importantíssima da construção de nós mesmos e de como nos identificamos: “qual é a parte que você se identificou quando comprou aquela blusa ou sandalinha?

Vestir-se com roupas e marcas que não significam nada pra você, carregar em seu corpo um símbolo de um estilo de vida que você não sabe qual é ou usar porque significa status social de acordo com “a revista disse que tá na Moda” é sim alienação. É pendurar no teu pescoço coisas que você nem sabe o que significam.

Talvez um tipo de alienação que você nunca tenha percebido de tão sutil que é, mas te padroniza a partir do teu próprio corpo. Te põe num patamar em que nem a sua aparência você domina conscientemente porque você consome como um autômato, apenas fazendo uma leitura rápida, decidindo mais rápido ainda e depois não sabe nem dizer porquê você mesmo fez aquilo. É transmitirmos a mensagem de que nossa sociedade tem a opção de ser livre, mas escolhe continuar presa. 

Experimentem então abrir seus guarda-roupas pensando se aquilo te representa de alguma maneira, se é útil, se é bonito pra você, se é essa a imagem que você que mostrar pro mundo; até mesmo se você não se importa com isso, saiba porque tudo está ali.

A aparência é só a “representação” de uma pessoa, somos todos muito mais complexos e amplos, mas não subestimem o empoderamento que é se olhar no espelho e pensar: “é exatamente assim que eu quero que me vejam, isso é parte da minha identidade”.


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14 opiniões sobre “Alienação no guarda-roupa existe

  1. Adorei a reflexão! Eu já me vesti e consumi moda simplesmente pela aparência ou para enquadramento em algum grupo. Não há muito tempo quando eu comecei a me conhecer melhor fui (estou) descobrindo a minha identidade, e isso refletiu no guarda-roupa e na hora de decidir o que era ou não bonito, confortável e que eu usaria. Acho que entra bem na questão de não deixar que o guarda-roupa simplesmente nos embrulhe.

  2. Vestir-se é um estado de espirito! Para mim ao menos. A forma que me visto reflete diretamente em como estou me sentindo naquele dia. As vezes mais melancólica, outrora romântica, fashion, moderna, ousada, e por aí vai. As vezes até acontece uma mistura louca por eu não saber exatamente como me sinto. O que eu não faço é me vestir para agradar ou me enquadrar em grupos. Aprendi que meus amigos me aceitam do jeito que eu sou, explico, minhas amigas gostam de se vestir meio pirisss, com comprimentos curtérrimos e tudo muito justo, e nem por isso elas me criticam, nem eu a elas. Mas cada uma tem sua opinião. Na maioria das vezes o que eu mais prezo ao me vestir é conforto. Me sentindo confortável, me sinto bem. Porém esse é um tema super abrangente, pois todos exercem influência sobre alguém no meio em que vive pela forma de se vestir. É a nossa capa, cartão de visitas. Beijos

  3. LACROU! Vejo muita gente usando as roupas só porque estão na moda ou porque a fulana da novela usa. Acho horrível isso, fico olhando e vendo apenas pessoas se vestindo iguais umas às outras pensando que são diferentes. Arrasou no post. Atualmente estou buscando um reflexo da minha personalidade através do que eu visto e espero conseguir =)
    Valeu a pena esperar

  4. Putz, isso é exatamente o que penso sobre a moda: pura expressão. A moda representa uma cultura, fala por ela. Também um estado de espírito. Quando uso batom vermelho, por exemplo, sei que estou alegre, semelhante a quando visto amarelo. É algo além de uma visão superficial, aparentemente fútil. É toda uma percepção de si e de qual mensagem a gente deseja comunicar ao mundo. A moda nos deixa livres, isso é o que mais admiro nela.

    Beijão ❤

    http://ninagaldina.tumblr.com

  5. ha! eu tô há um tempo já tentando desconstruir e reconstruir meu guarda-roupa pq chegou um momento que falei: “porra, não me enxergo nessas peças”. E esses dias peguei uma jaqueta jeans (q eu sempre odiei, mas comprei pq “uma jaqueta é must have”) e de novo: “porra, oq q isso tá fazendo aqui, cara?” e “isso não sou eu”.
    tipo, já q é pra vestir uma roupa “porque eu quero; porque eu acho bonito” e não sair pelado na rua, que isso seja feito com capricho, saca? Capricho no sentido de recusar a mediocridade e fazer e trazer um pouco de sentido pra aquilo q vc realmente é!
    Muito louco esse post, gosti xD!!

    Ahh, o cabeçalho tá com minha caligrafia meixmu. Rachei com o ” só achei fonte feia, delicadinha estranha…”. Foda, né?kkkkkk Eu acho mó bacana caligrafia própria. Pq não tenta?

  6. Amei o seu post! Eu to em uma mudança de guarda roupa frenética, porque só comecei a ganhar meu próprio dinheiro ano passado, então agora sim posso pegar o meu dinheirinho e comprar as roupas que me fazem sentir bem e que eu gosto, porque sinceramente eu tinha/tenho roupas no meu guarda roupa que não fazem parte de mim, não sou eu em muitas das vezes, sabe? E quanto a marcas que envolvem todo um estilo de vida e etc., nem levo muita importância nisso. Pra mim se a roupa é bonita e caiu bem em mim, não quero nem saber qual a marca, qual o preço e tal, mas confesso que as vezes tenho essas recaídas nessa alienação que você comentou.

    Beijos!
    http://www.likeparadise.com.br

  7. Ai, me senti muito representada com esse post. Já tive crises desse tipo, de abrir o guarda-roupas e me perguntar “por que tenho isso?”. Eu nunca tive condições financeiras pra comprar coisas de marca, então isso nunca foi um problema pra mim haha embora o mercado crie os desejos em nós, né…
    Enfim, de qualquer forma me sinto meio refém quando vou numa loja porque não tem jeito, eles só vendem aquilo que “está na moda”. E eu sou muito básica, comprar uma calça jeans totalmente clean, por exemplo, e pagar barato, não é fácil. E isso me ensinou a conservar bastante as roupas que eu gosto hahaha então independente se esta in ou não, eu continuo usando.
    O pinterest tem mudado bastante minha relação com as minhas roupas também. É estranho falar isso, mas é verdade hahahaha Ao mesmo tempo que fico vendo coisas lindas que eu não tenho, o que é a parte ruim, ele tem servido de inspiração pra fazer combinações diferentes, tirar aquela peça que estava guardada há anos e, consequentemente, isso tem me feito repensar bastante meu estilo. Um exemplo concreto: odeio salto, sandálias, não sou esse tipo de pessoa, sapatos apertados. Gosto muito de andar confortável, amo tênis, blusa larga, legging etc, mas isso meio que pode ser visto como “desleixo”, fica parecendo que você não se arrumou direito. E aí tem um tempo que descobri no pinterest isso que eles chamam de “sport chic” e eu me descobri. Sabe quando você bate o olho em algo e fala: sou eu! Eu não preciso ficar usando sapatilhas, jeans, blusas apertadas se eu não quero, se elas não me representam. Eu posso sim usar legging, saia pregueada, meia calça, com tênis, com meus oros (mentira), com jaqueta de couro, com o @#%$#% que eu quiser. Sabe? Nesse sentido tem sido muito inspirador e eu notei que algo mudou nos últimos tempos. Ainda não identifiquei bem o que é, mas mudou. Estou me sentindo melhor, mais eu e tem sido bom.
    Seus posts são sempre lindos! Amo de paixão! ❤
    (aqui meu painel, se você quiser ver do que estou falando: https://www.pinterest.com/carolcaniato/style/)

  8. Muito bom seu post Ingrid .
    Me senti super representada. Já tive fases de ser “vítima da moda”, de ser “do contra” de usar coisas totalmente ao contrario de todo mundo, de ser a rebelde…. e de até tentar me enquadrar nos padrões quando adolescente o que é ao meu ver uma tremenda falta de tempo….
    Acontece que até hoje, ainda estou tentando descobrir o meu estilo e acho que ainda não encontrei uma resposta para ele. Mas hoje me sinto bem, já sei aquilo que gosto, o que me veste bem, aquilo que fica melhor e a partir dai faço escolhas mais conscientes. Dentro desse bombardeio que a gente sofre a cada minuto/ segundo.

    Lacrou com o post fodástico! Congrats!

    Bjs e bom começo de semana

    Pri

    http://www.styledchicas.blogspot.com.br

  9. Caraca, muuuuuuuito bom teu post! ❤ E ainda acrescento mais lenha para a discussão: mesmo que você saiba exatamente qual a intenção e que identidade você quer ter com determinadas roupas, será que você ainda não continua alienado por não saber todo o sistema de engrenagens de produção que tem, desde o conceito do teu vestuário até o local e por quem e em que condições ele foi produzido. Por exemplo, a questão da marca, se a gente pensar bem, muitas marcas são produzidas na China porque é mais barato, o mesmo local onde suas réplicas também são produzidas. Mas uma, é claro, custa muito mais caro, mas porque? Quanto do custo da produção concreta está inserida no preço e quanto é especulação? São coisas que eu também gosto de me perguntar. Novamente, post muito legal esse teu! 😀

  10. Quero bater palmas toda vez que leio seus posts sobre moda. Você fala umas coisas TÃO necessárias, sabe? Sei lá, o mundo precisa disso. Eu já fui muito de me vestir porque uma coisa x estava em alta e fim, só por isso mesmo. Eu continuo não me privando de comprar as coisas que eu quero, mesmo quando num primeiro momento aquilo não tem nada a ver comigo, mas tenho tomado mais cuidado pra não acabar consumindo pelo puro consumir, sabe assim? Padronização é uma coisa que me irrita muito e eu confesso que meu desinteresse atualmente pelos blogs de moda se deve em muito por causa disso. É tudo muito igual, sempre as mesmas roupas, as mesmas combinações, às vezes até as mesmas marcas e eu não vejo sentido em nada disso. Eu ando tendo crises fortíssimas com meu guarda-roupa e comecei a me desfazer daquilo que definitivamente não me representa, mas é tudo parte de um exercício que, acho, as pessoas precisam fazer mais. Tenho acompanhado blogs de moças que se propõe a ter um capsule wardrobe e é tão inspirador que cada vez que eu bato o olho no meu closet abarrotado, dá vontade de doar tudo e ficar só com um punhado de peças que eu uso de verdade. Minha preferida é a Caroline, do un-fancy.com mas eu ficaria bem feliz em ver brasileiras seguindo o mesmo exemplo, porque verdade seja dita, isso ainda é uma coisa que a gente não encontra tanto assim por aqui. Enfim, acho que ainda é um assunto que precisa de muita discussão, mas é importante ver gente colocando o dedo na ferida e admitindo que, opa, tem alguma coisa muito errada aqui.

    beijo ❤

  11. Que alívio Ingrid, ler um post com reflexões sobre moda e identidade (versus milhões de posts sobre como usar o look perfeito para o trabalho, para uma festa etc.). Encaro esse seu post (e muitos outros, na verdade) como um convite para dentro de nós mesmos. Mais reflexão, menos linha de montagem.

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